- Nicolai? Nicolai Mikhailovich Fedorovsky?
Nicolai ergueu lentamente os olhos do copo vazio em cima da mesa. A Morte estava de pé à sua frente. Trazia a velha foice na mão, a lâmina em quarto-crescente pairava-lhe sobre a cabeça como uma lua, como um satélite natural atraído pela gravidade do manto negro, uma figura impressionante!...
Mas Nicolai Mikhailovich Fedorovsky não estava impressionado. Conhecia bem a Morte e apontou para uma cadeira. A Morte sentou-se e entendeu a foice em cima da mesa, derrubando o copo, um gesto que Nicolai já esperava.
Ficaram os dois em silêncio. Nicolai Mikhailovich parecia calmo. A Morte sentia essa tranquilidade. Talvez nada precisasse ser dito.
Ficaram os dois em silêncio. Nicolai Mikhailovich parecia calmo. A Morte sentia essa tranquilidade. Talvez nada precisasse ser dito.
Como ninguém dizia nada, ao fim de um bocado tornou-se constrangedor. Nicolai olhou então para a foice e pegou nela, levantou-a no ar, espreitou pelo cabo, bateu com ele várias vezes no chão, sacudiu com violência, e depois voltou a colocá-la em cima da mesa.
- Tens aí uma foice para a vida! -, disse Fedorovsky com um aceno de cabeça aprovador.
A Morte, que até então se tinha mantido impassível, avançou com os olhos pela lâmina, primeiro ao longo do gume cadáver, depois pelo cabo, percorrendo a madeira tantas vezes marcada pela vida. Como podia Nicolai dizer aquilo? Será que não via o desgaste do instrumento?
Ainda ficou ali um bocado a olhar para ele. Depois levantou-se, e, sem dizer nada, foi-se embora muito triste.

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